quarta-feira, 17 de abril de 2013


T.S. Eliot
Quatro Quartetos
Tradução de Ivan Junqueira
I
A primavera em pleno inverno é por si própria uma estação
Sempiterna embora encharcada rumo ao ponte,
Suspensa no tempo, entre polo e trópico.
Quando o breve dia mais cintila, com geada e fogo,
Um sol fugaz inflama o gelo dos açudes e canais,
No frio sem vento que aquece o coração
Refletindo num espelho aquoso
Clarões que em cegueira se transmudam ao raiar da tarde.
E um fulgor mais flamejante que o gládio dos galhos em brasa
Fustiga o espírito entorpecido: vento algum, mas fogo pentecostal
Na quadra escura do ano. Entre degelo e gelo em riste
Tremeluz a seiva anímica. Nenhum odor de terra
Ou sequer de coisa viva. Este é o tempo primaveril
Embora avesso às convenções do tempo. Agora, a sebe
Por um momento alveja em transitória floração
De neve, um viço mais súbito
Que o do verão, sem rútilos botões ou flores murchas,
Alheios aos desígnios da germinação.
Onde o verão, o inconcebível
Verão-zero?
Se viesses por aqui,
Tomando o itinerário que provavelmente tomarias
Desde o lugar de que sem dúvida partirias,
Se viesses por aqui nos tempos de maio, encontrarias as sebes
Brancas outras vez, em maio, com voluptuosa doçura.
O mesmo ocorreria ao fim de tua jornada,
Se viesses à noite como um rei em ruínas,
Se de dia viesses sem saber por que vinhas,
Ocorreria o mesmo quando abandonasses o áspero caminho
E rumasses, rodeando o chiqueiro, à obscura fachada
E à pedra tumular. E aquilo por que supunhas vir
É somente uma concha, uma casca de significado
Cujo propósito desponta apenas ao cumprir-se,
Se acaso isto acontece. Ou seja que nenhum proposito tivesses
Ou que o proposito ultrapassa o fim que imaginaste
E se altera ao ser cumprido. Outros lugares há
Também no fim do mundo, alguns entre as mandíbulas do mar,
Ou sobre um lago em trevas, num deserto ou numa cidade
– Mas este é o mais próximo, no espaço e no tempo,
Agora e na Inglaterra.
Se viesses por aqui,
Tomando qualquer itinerário, partindo do ponto que quisesses,
A qualquer hora em qualquer estação,
O mesmo sempre ocorreria: terias que despir
Sentido e noção. Não estás aqui para averiguar,
Ou te instruíres a ti próprio, ou satisfazer a curiosidade
Ou redigir um informe. Aqui estás para te ajoelhar
Onde eficaz tem sido a oração. E a oração é mais
Que uma simples ordem de palavras, a consciente ocupação
Do espírito que reza, ou o som da voz durante a prece.
E o que não puderam transmitir os mortos, quando os vivos,
Podem eles dizer-te, enquanto morto: a comunicação 
Dos mortos se propaga – língua de fogo – além da linguagem dos vivos.
Aqui, a interseção do momento atemporal
É a Inglaterra e parte alguma. Nunca e sempre.
II
A cinza sobre um velho é toda a cinza
Que nos deixaram as rosas incendiadas,
A poeira no ar suspensa determina
O sítio onde uma história teve fim.
A poeira aspirada era uma casa,
A parede, o lambril, o rato escasso.
A morte do esperar e do desesperar,
Esta é a morte do ar.
Inundação e seca desabrocham
Dentro da boca, sobre os olhos.
Água morta e morta areia tentam
Levar vantagem na contenda.
O ressequido solo desventrado
Boquiabre-se ante o vão trabalho
E ei sem alegria dessa guerra.
Esta é a morte da terra.
Água e fogo sucederam
A vila, o pasto, a urze anônima.
Água e fogo escarneceram 
Do sacrifício que repudiamos.
Água e fogo escarvarão
Os podres fundamentos que olvidamos
Do santuário e do seu coro.
Está e a morte da água e do fogo.
A uma hora incerta que antecede a aurora
Vizinha ao término da noite interminável
No recorrente fim do que jamais se finda
Após o negro pombo de flamante língua
Perder-se no horizonte de sua fuga
Enquanto as folhas mortas se moviam
Vibrando ainda como lâminas de zinco
Sobre o asfalto onde outro som nenhum se ouvia
Entre três bairros de onde a fumaça emergia
Alguém notei que andava, trôpego e apressado,
Como se vindo a mim tal as folhas metálicas
Que a brisa urbana da alvorada embala.
E ao mergulhar naquele rosto cabisbaixo
Esse pontiagudo olhar inquisidor
Com que desafiamos o primeiro estranho
Surgindo na penumbra agonizante
Captei o olhar fugaz de algum extinto mestre
A quem outrora houvesse conhecido,
Esquecido, lembrado após sem nitidez,
Como um só e a muitos de uma vez;
Sob o castanho sazonado das feições
Os olhos de um complexo e familiar espectro
A um tempo só distinto e incognoscível.
Gritei, cumprindo assim o duplo papel,
E uma outra voz ouvi bradar: “O quê!
Tu por aqui?” Conquanto ali não estivéssemos.
Contudo eu era o mesmo, embora um outro fosse
- E ele um rosto ainda em formação;
Mas bastaram as palavras para que aceitássemos
O que já precedido elas haviam.
E assim, obedientes ao vento comum, 
Demais estranhos para não nos entendermos,
Concordes nesse instante de erma interseção,
De em parte alguma estarmos, antes e depois,
Em ronda morta e calçamento percorremos.
Disse-lhe então: “É natural o espanto
Que sinto, embora a naturalidade
Seja causa de espanto. Fala, pois: talvez 
Eu não possa entender, ou recordar sequer”.
E ele: “Não quero repetir o que esqueceste
Sobre meus pensamentos e doutrinas.
Tais coisas já cumpriram seu destino: deixa-as.
Faze o mesmo com as tuas, e roga aos outros
Que as perdoem, como te rogo que perdoes
A maus e bons. Comido foi o fruto
Da última estação, e a besta empanzinada
Há de atirar seus coices contra o cocho.
Pois as palavras do ano findo só pertencem 
A linguagem do ano findo, e as palavras
Do ano próximo outra vez aguardam.
Mas, assim, como agora a estrada se abre limpa
Ao intranquilo e peregrino espírito
Entre dois mundos que chegaram a parecer
Demasiado iguais, assim descubro agora
Palavras que jamais pensei dizer
Em ruas que jamais pensei revisse 
Quando meu corpo abandonei sobre uma praia.
Posto que nosso fim era a linguagem,
E a linguagem desde sempre nos levara
A purificar o dialeto da tribo
E a instigar a mente para a antevisão
E a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
À velhice reservadas, para que seja 
Corado o esforço de tua vida inteira.
Primeiro, o enregelado atrito dos sentidos
Que expiram sem magia e nada prometer,
Senão a amarga insipidez de um fruto umbroso
Quando a alma e o corpo, espedaçados, principiam
A tombar cada qual para seu lado.
Segundo, a lúcida impotência do ódio
Ante a loucura humana, e laceração do riso
Perante aquilo que cessou de divertir-nos.
Enfim, a lacerante dor de reviver
O que já terminaste, e o que foste; a vergonha
De motivos tarde apenas revelados
E a memória de todas as coisas mal feitas
Ou feitas simplesmente em prejuízo alheio
Que antes tomaste por virtuosas práticas.
Nesse momento é que se arranca o aplauso
De tolos, e a honra se macula.
O erro após erro, o exasperado espírito
Prosseguirá, se revigorando não for
Por esse fogo purificador
Onde mover-te deves como um bailarino”.
Raiava o dia. Na desfigurada rua
Ele deixou-me, como um esquiva despedida,
E evaporou-se ao brônzeo som da trompa.
III
Três condições existem que amiúde iguais parecem
Embora difiram por completo, na mesma sebe florescem:
Apego a si próprio e das coisas e das pessoas; e, entre ambas germinando, indiferença
Que às outras se assemelha tal a morte se assemelha à vida
E que entre duas vidas se enraíza – enflorescida, entre
A urtiga viva e a morta urtiga. Esta é a função da memória:
Libertação – não menos amor, mas expansão
De amor para além do desejo, como também libertação
Do passado e do futuro. Assim, o amor é um país
Começa como apego à nossa própria esfera de ação
E acaba por jugar que tal ação seja de pouca importância
Conquanto nunca indiferente. A História pode ser escravidão,
A História pode ser liberdade. Vê, tudo agora se dissolve,
As faces e os lugares, com o eu que, tal como pôde, os amou
- Para se renovarem, transfigurados, em outro modelo.
O Pecado é Inelutável,
Mas tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem.
Se ainda me lembro desta terra,
E desta gente, não de todo elogiáveis,
Sem parentesco nem bondade próximos,
Exceto alguns de gênio singular,
Todos marcados por um só gênio comum,
Unidos na discórdia que os sangrava;
Se me lembro de um rei à noite vindo,
De três homens, ou mais, sobre o patíbulo
E de muitos que morreram deslembrados
Em outros lugares, aqui e no estrangeiro,
E daquele que morreu cego e tranquilo,
Por que haveríamos então de celebrar
A estes mortos mais que aos moribundos?
Não que se trate aqui de exorcizar
O som de um tímpano retrospectivo
Como tampouco de sortilégio
Para invocar o espectro de uma Rosa.
Não podemos reviver velhas tendências
Não podemos restauras velhas políticas
Ou dar ouvidos a um tambor antigo.
Estes homens, como os que a eles se opuseram,
E todos aos quais se opuseram aqueles,
Aceitam a constituição do silêncio
E se congregam num partido único.
Tudo quanto herdamos dos afortunados
Tomado foi por nós aos derrotados
Seu único legado – um símbolo:
Um símbolo de morte temperado.
E tudo irá bem e toda sorte de coisa irá bem
Pela purificação do impulso,
Nas raízes de nossa súplica.
IV
A pomba mergulhando rasga o espaço
Com flama de terror esbraseado
Cujas línguas arrojam sem cessar
Um jorro apenas de erro e de pecado.
Toda esperança, ou mais desesperar,
Está na escolha de uma ou de outra pira
- Para que o fogo pelo fogo nos redima.
Quem, pois, urdia tanto suplício? Amor.
Amor é Nome de furtiva chama
Sob as mãos que teceram com rancor
A intolerável túnica de flama
A que poder algum se pode opor.
Apenas suspiramos, ainda vivos,
Por esse ou outro fogo consumidos.
V
O que chamamos de princípio é quase sempre o fim
E alcançar um fim é alcançar um princípio.
Fim é o lugar de onde partimos. E cada frase
Ou sentença de rigor (onde cada palavra se ajusta,
Assumindo seu posto para suportar as demais,
A palavra sem pompa ou timidez,
Um natural intercâmbio do antigo e do novo,
A palavra de cada dia, correta e sem vulgaridade,
A palavra exata e formal, mas não pedante,
O completo consórcio de um bailado simultâneo)
Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio,
Cada poema um epitáfio. E qualquer ação
É um passo rumo ao todo, ao fogo, a uma descida à garganta do mar
Ou à pedra indecifrável – e daí é que partimos.
Morremos com os agonizantes:
Vê, eles nos deixaram e com eles vamos nós.
Nascemos com os mortos:
Vê, eles retornam, e consigo nos trazem.
O momento da rosa e o momento do teixo
Igual duração possuem. Um povo sem História
Não está redimido do tempo, pois a História é o modelo
Dos momentos sem tempo. Assim, enquanto a luz se extingue
Num tarde de inverno, numa capela reclusa
A História é agora e Inglaterra.
Com o impulso desde Amor e a voz deste Chamado
Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da vez primeira que o vimos.
Pela desconhecida, relembrada porta
Quando o último palmo de terra
Deixado a nós por descobrir
Aquilo for que era o princípio.
Nas vertentes do mais longo rio
A voz da cascata escondida
E as crianças na macieira
Não percebidas, porque não buscadas
Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre
- Uma condição de absoluta simplicidade
(Cujo custo é nada menos que tudo)
E tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem
Quando as línguas de chama estiveram
Enrodilhadas no coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa se tornarem um.

Little Gidding

T.S. Eliot Quatro Quartetos Tradução de Ivan Junqueira I A primavera em pleno inverno é por si própria uma estação Sempiterna embora e...

 

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